As águas que vão e vem...

Texto de Raquel de Queiroz
Última Hora
20/03/73


Águas de março

Tom Jobim escreveu e compôs o poema musical das Águas de Março, coisa bela e estranha, dura; fere o coração com um toque de pedra e depois o afoga na cheia das águas. Promete e recorda, memória de infância e angústias da força do homem. E até num velho pode suscitar nostalgias antigas.
Águas de Março; não sei se o sabia, Tom, são também para muita gente a última esperança. Equinócio de verão, dia de S. José, a derradeira oportunidade do inverno. Vinte e um de março - a virada do verão, o equinócio. Mas o povo antes se fia no 19 de março, dia de S. José, o carpinteiro, que foi gente como nós e sabe o que é pobreza e insegurança.
Sim, Tom, tem lugares no mundo onde é a última oportunidade. Se não chover até ali, não chove mais; daí para diante, será por toda parte só o vento, o sol, a terra cizenta, a fome - se a gente quisesse repetir a batida de eco da sua enumeração poética.
Este ano vem sendo o quinto em que não chove ou chove mal em muitas zonas do Nordeste. Salteado chove, aqui e ali, mas nunca regularmente e geral, nunca total e seguido nos meses certos, como devia ser. Se em 60 foi bom aqui, em 70 foi péssimo, nos outros foi fraquinho. E nos Inhamuns, por exemplo, foi ruim emendado, o tempo todo. A mesma história se conta nas margens do S. Francisco, no sertão inteiro de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará. E esses anos magros de estiagem, juntando-os todos, vêm a ser pior do que uma seca completa e corrida, de dezembro a dezembro. Pois a seca vindo de repente, embora total, encontra as reservas dos anos bons, açudes cheios, gado sadio, algum resto de legume e farinha nos paióis. E o povo resiste bem, sabendo que é só aquele ano; trinca os dentes e agüenta - afinal é uma penitência.
Mas depois que apareceu a seca verde, é diferente e pior. Chove um pouco em janeiro ou fevereiro. Nasce a rama, a terra se enfeita, os jornais dão notícia. O povo planta. E aí recomeça o verão. Com o verão, vem a largata, come toda folha nova. Então o povo replanta. Em alguns lugares o legume nasce, em outros nem chega a nascer, porque o inverno parou. Só uns barrufos de chuva, de longe em longe, que não dão para umedecer o chão de novo estorricado e só servem para desmentir quem fala em seca.
Com os anos seguidos de inverno escasso, os açudes baixaram, cada falso inverno perdendo mais do que recuperando. Afinal veio 72, e tudo secou de vez. O leito da água evaporada ficou no barro, lascou, empedrou. O peixe, que era um dos recursos do povo, morreu todo. Reserva de nada não há mais nenhuma. Até a água dos grandes açudes do governo fica grossa, baldeada. O gado é uma ameaça, descarnado e triste.
E o povo, que vai ser dele? Voltar à amargura, ao vexame das frentes de serviço, trabalhos de caridade que as máquinas fariam muito melhor? Só Deus sabe - Deus e S. José no seu dia, 19 de março. O qual, quando estas linhas sairem à rua, já se terá passado - e então se saberá definitivo se é hora de sorrir ou de chorar.




Cantar e viver

As vezes parece que meu coração é demais pra esse mundo cheio de controvérsias.
Ou o mundo é disforme demais pra tanto sentimento.
As coisas mexem, mudam de lugar, tudo passa.
Tudo como um rio.
Mas o riso interior, a satisfação de ser gente e a alegria de encontrar o bem em cada sorriso, em cada gesto não deve ser esquecido.
Porque quem não sorri ao menos uma vez no dia corre o risco de deixar de se encantar com os detalhes da vida.
A vida é simples, a gente é quem complica!
(Gerlondson Jr)

Caminhando...

Quem era ela?
Quando lançada a pergunta, a necessidade da resposta é instantânea.
Olhares rápidos são capazes de ofuscar a beleza presente na procura.
Antes da resposta, deve-se analisar se realmente nos conhecemos ou
somos os projetos das idealizações dos outros.
"Conhece-te a ti mesmo..."
Todos os princípios têm, como elemento cerne, a resposta daquilo que nos perturba
e instiga nossa mente a correr.
Cada dia precisa de sua resposta,
achada na penumbra da noite ou na correria passageira do momento.
Mas decidida e escolhida com calma e seletivamente.
Porque quem tem preguiça de pensar está perdendo tempo em viver...

(Gerlondson Jr)

Tom e Desafinado

Tom Jobim - O "Desafinado" evidentemente não é desafinado. Quando o João Gilberto gravou essa música, saiu na imprensa que ele o era desafinado, mas que tinha uma voz muito bonita, tinha muita bossa. "Desafinado" não tem nada de desafinado, os maestros da época sabem disso. Trata-se de uma pessoa gozando a especialização. Existem pessoas que são inteligentíssimas e antimusicais, mais do que desafinados são "tone-deaf", quer dizer, não tem realmente noção da altura do som. Então, o desafinado é o sujeito que tem uma namorada, que certamente é muito afinada, bonita, gostosa, e ele, um rapaz desafinado, diz: "Se você disser que eu desafino, amor, saiba que isto em mim provoca imensa dor".

Eis a música:
Quando eu vou cantar, você não deixa
E sempre vêm a mesma queixa
Diz que eu desafino, que eu não sei cantar
Você é tão bonita, mas tua beleza também pode se enganar

Se você disser que eu desafino amor
Saiba que isto em mim provoca imensa dor
Só privilegiados têm o ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu

Se você insiste em classificar
Meu comportamento de anti-musical
Eu mesmo mentindo devo argumentar
Que isto é Bossa Nova, isto é muito natural

O que você não sabe nem sequer pressente
É que os desafinados também têm um coração
Fotografei você na minha Rolley-Flex
Revelou-se a sua enorme ingratidão

Só não poderá falar assim do meu amor
Este é o maior que você pode encontrar
Você com a sua música esqueceu o principal
Que no peito dos desafinados
No fundo do peito bate calado
Que no peito dos desafinados também bate um coração

Sentido de ser amigo.

O vento frio que sopra na calada da noite após esse temporal me lembra que preciso continuar o meu ofício de escrever. Não só para que meus sentimentos se aquietem, mas pelo simples fato de querer viver aprendendo a cada dia. Talvez nossos momentos precisem de mais romantismo. Não aquele meloso, mas o que dá valor aos pequenos fatos cotidianos e os valoram com uma conotação especial. Um jeito especial de olhar,um abraço apertado, um texto bem escrito dão uma pitada especial a uma dia desgastado. Mas tem umas coisas que quando não estão presentes abalam as estruturas. Assim são os amigos. Diz o poeta que não suportaria de forma alguma que os seus amigos se fossem.

Já Millôr Fernandes assim escreve:“A verdadeira amizade é aquela que nos permite falar, ao amigo, de todos os seus defeitos e de todas as nossas qualidades.”

Será mesmo que aguentamos quando uma pessoa nos revela aquilo que não temos coragem de assumir que somos? Ser amigo é,acima de tudo, ser sincero e não ficar a todo momento concordando, pois se assim fosse seria apenas via de um lado, não acha? Quem não consegue ser desvendado no outro é porque ainda não se conhece por inteiro.

O tempo é amigo da amizade, que,quando longe, faz os amigos sentirem falta. Não queira se apressar, pois o capricho vem com a lapidação do diamante que está a se formar.


(Gerlondson Jr)

Estou de volta...

Estou de volta, retorno de um mundo distante onde a saudade se fez em mim pelo que deixei de viver. Minha partida não foi programada, muito menos esperada por mim. Ela se fez de forma tão implícita às decisões que tomei que quando me procurei já não mais estava lá. Estou de volta a experimentar o que de melhor posso ser, não como antes, mas como hoje.

Voltei não pela falta das coisas boas que vivi, mas porque percebi que o que estava vivendo não supriria minha vontade de ter boas recordações. Do que me lembraria se continuasse? Da grande ausência de meus amigos, do vento frio que soprava a noite ou da réstia de luz que me acordava cedo e me lembrava que eu tinha de acordar de meu sonho.

Ao menos aprendi que a vida é porto de chegada e de partida, é espera e abraço, sorrir e chorar...esse tempo me fez escolher que parte eu quero, e com certeza, o que quero é a melhor!

(Pedro Vítor)

Um amigo, um altar

Como os altares, as amizades precisam ser construídas.


Altar é lugar de sacrifício, lugar onde se oferece uma vítima em holocausto. Os altares sempre são constituídos para esta finalidade, para através de um sacrifício fazer memória dos favores que Deus concedeu.

Um altar precisa ser construído com esforço pessoal e decisão de coração. Ele é memorial, lugar da teofania, da manifestação do amor de Deus. Amizades são altares.
Ouça comentários do autor

Amizade é oblação, é ir além do que é natural em nós, é tocar o sobrenatural. Da mesma forma que um altar pressupõe um holocausto, uma amizade traz em si o sacrifício. É preciso sacrificar a nós mesmos, nossas falsas verdades, nossos gostos e desejos pessoais. Amizade é altar, é lugar onde se derrama sentimento, lágrimas, sangue, vida. Se esse derramar em sacrifício não acontece, não há altar, não há amizade.

Como os altares, as amizades precisam ser construídas, edificadas com o que há de melhor em cada um. São sentimentos, experiências, valores, sonhos, que como verdadeiras pedras vão se sobrepondo para que ali verdadeiramente aconteça o sacrifício. São pedras que não podem ser tolhidas pelos desejos de nenhuma das partes, pois trazem em si aquilo que é o melhor, o sagrado, o original de Deus em cada um. Lapidá-las para adaptá-las às nossas vontades, aos nossos desejos, significa profaná-las. Eu não posso construir um altar, uma amizade com nada a não ser o que há de mais puro e sagrado. Eu não posso ser verdadeiramente um amigo se eu não levo comigo a originalidade de Deus em mim. Um altar profanado, uma amizade profanada, só tem um destino: a destruição.

Há um valor especial em qualquer coisa que nós mesmos construímos ou ajudamos a construir, ainda mais quando se trata de pessoas. Uma amizade que não traz em si a vontade de ajudar a construir o outro, não manifesta vida, não há significado, não há porque, não há santidade, não há razão de ser. Um altar é santo em razão do que ele significa. Uma amizade que não constrói o outro perdeu o seu sentido, o seu significado, a sua capacidade de sacralizar.

O ato de construir o outro não é fácil, causa dor em ambos, entraves, muito sacrifício mútuo e pessoal. Mas - como foi dito antes - se não há sacrifício, não há altar. Para construir o outro eu preciso derramar o meu sangue, a minha vida, para que a oferta do meu sacrifício seja capaz de trazer à tona o que há de melhor no outro, mesmo que para isso precise doer primeiro em mim. É um ato de oblação, de oferta, que à medida que nos aproxima do altar, nos aproxima do próprio Deus, tornando-nos interiormente livres. Quanto mais sacrifício há em uma amizade, mais liberdade se adquire, mais próximo de Deus se chega. O altar me leva a alcançar a Deus. Se uma amizade não me leva ao Senhor, ela perdeu a essência.

Deus me levou a construir amizades durante a minha vida. Elas são verdadeiros memoriais da visita do Senhor na minha história. São verdadeiros altares onde eu posso me derramar, derramar a minha vida, sacrificar a mim mesmo, ser melhor, crescer na certeza de estar me aproximando cada vez mais de Deus. Se uma oferenda é santificada e apresentada ao Senhor pelo contato com o altar, cada vez que me “derramo” sobre um amigo, sou apresentado mais santo do que poderia ser sozinho. Ninguém se santifica sozinho. Amizades são instrumentos eficazes de Deus para minha santificação.

Deus não colocou somente pessoas em minha vida, me deu amigos, me deu altares onde eu posso perpetuamente me oferecer em holocausto e me sacralizar.

Seu altar,

Renan Felix

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FONTE: http://www.cancaonova.com/portal/canais/formacao/internas.php?id=&e=11534

Cãopanhia

A cada dia, uma surpresa.

Não é fácil aceitar as determinações do tempo.

Quanto mais queremos, menos as coisas acontecem.

Parece que a expectativa demasiada impede o plano de acontecer.

Deus não tarda, capricha...

E na naturalidade, pode trazer transformações.

Um cachorro, um texto, uma música

Podem nos fazer repensar toda a trajetória de uma vida.

O cachorro é o melhor amigo do homem, já diziam.

Talvez pelo seu olhar que tenta nos entender(e talvez o contrário também seja verdadeiro), pela calma da parceria, pela gratiudade da amizade, que confia sem cobrar, Não tem preço. Nem palavras.

Nos animais também existe um pedaço de Deus.


(Gerlondson Jr)

Cultivo

Qual o sentido da amizade? Ser pessoa passa necessariamente pelo encontro entre pessoas que nos cativam e fincam vínculos, mudando a trajetória de uma vida. Mas é preciso ter cuidado, pois ser amigo não é fazer tudo o que o outro quer, falar o que o outro quer ouvir. O desafio maior é ajudar o outro a ser feliz através de suas limitações, aceitando-o como ele é e não como idealizamos, pois se não houvesse a diversidade, o mundo seria muito monótono, não acha?
Ser amigo, portanto, é querer bem, amar, aceitar, mesmo quando o outro não merece.
Isso é a gratuidade da amizade que precisa ser cultivada, para conseguirmos ser pessoas melhores.

Aproveito o momento para colocar o vídeo com o pensamento do Padre Fábio de Melo, uma pessoa que trasmite luz por onde passa e nos mostra a imagem do Cristo Humano que devemos nos espelhar.




(Gerlondson Jr)

Fado Tropical

Arrumando a minha biblioteca de músicas ouvi a música que segue, de Ruy Guerra e Chico Buarque de Hollanda. Como a múito tempo não posto nada, segue algo de minha escolha:




Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril

Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo ( além da sífilis, é claro)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."

Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do alentejo
De quem numa bravata
Arrebata um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa"

Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre trás-os-montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial

Pelas minhas andanças no google, creio que a poesia embutida na música seja dos autores da música, se eu estiver errado, alguem me esclareça.

Pedro Vítor